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Àquelas que carregam, todos os dias, um pouco mais do que deveriam carregar...

há 19 horas
3 min de leitura

Quando uma mulher decide partir, quase sempre já partiu muitas vezes por dentro...


*Um alerta importante: eeste texto fala sobre o tempo interior de uma decisão, mas nenhuma mulher deve permanecer em uma situação de violência, mas, se você sofre qualquer tipo de violência, não espere que a situação se agrave. Procure ajuda e, em caso de risco imediato, vá para um local seguro e ligue 190. Conte o que está acontecendo a pessoas próximas e de confiança. Você não precisa enfrentar essa situação sozinha.


Antes de arrumar as malas, fechar uma porta ou dizer em voz alta “eu não quero mais”, ela atravessou um caminho que poucas pessoas viram. Um caminho feito de noites sem dormir, conversas ensaiadas e nunca iniciadas, lágrimas engolidas e perguntas repetidas até a exaustão.


“Será que estou exagerando?” “E se eu tentar mais uma vez?” “E se as coisas mudarem?”


De fora, pode parecer uma decisão repentina. Para quem viveu, porém, talvez tenha sido a decisão mais demorada de todas. Porque partir não é apenas deixar uma pessoa ou um lugar. É abandonar uma história na qual se acreditou. É aceitar que os planos não serão vividos como foram imaginados. É olhar para tudo o que foi construído e admitir, com uma dor difícil de explicar, que permanecer também pode ser uma forma de se perder.


E há tantas coisas puxando uma mulher de volta...


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O medo da solidão. O julgamento da família. A preocupação com os filhos. A dependência financeira. A vergonha de contar o que viveu. A esperança de que amanhã seja diferente. E aquelas frases que quase sempre aparecem, ditas por quem não precisa suportar as consequências: “Tenha paciência”, “Todo relacionamento passa por dificuldades”, “Pense bem antes de jogar tudo para o alto”.


Como se ela já não tivesse pensado. Como se não estivesse cansada de pensar.


Muitas mulheres permanecem não por falta de coragem, mas porque sabem o tamanho da travessia que as espera. Permanecem enquanto tentam entender o que sentem, enquanto juntam forças, enquanto procuram uma saída possível. Algumas ainda precisam aprender a confiar na própria percepção depois de passarem tanto tempo ouvindo que estavam erradas, confusas, ingratas ou sensíveis demais.


Até que alguma coisa muda.


Nem sempre acontece algo grandioso. Às vezes, é apenas uma frase ouvida mais uma vez. Um olhar no espelho. O silêncio depois de outra discussão. A descoberta incômoda de que já não se reconhecem. Ou um instante de lucidez em que percebem que estão usando toda a própria energia para sobreviver a uma relação que deveria lhes oferecer abrigo.


É nesse momento que a ideia de partir deixa de parecer impossível. O medo não desaparece. As dificuldades também não. Mas nasce uma certeza pequena, ainda frágil: talvez exista vida do outro lado. Talvez seja possível voltar a respirar sem pedir licença. Talvez paz não seja desejar demais.


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A partida que todos veem acontece depois. A verdadeira mudança começa quando uma mulher entende que não nasceu para passar a vida inteira tentando caber em um lugar que a diminui.


Por isso, se você ainda não conseguiu ir, não transforme a sua hesitação em mais uma culpa. Só você conhece o peso do que está vivendo. Só você sabe o que precisará enfrentar, reorganizar ou proteger. E, se houver violência ou ameaça, peça ajuda imediatamente. Não espere. Sair não precisa ser um salto no escuro: pode ser também uma decisão acompanhada de segurança, planejamento e apoio.


Dê a si mesma o tempo necessário, mas não use esse tempo para continuar se convencendo de que a sua dor é pequena. Ela não precisa se tornar insuportável para ser legítima. Talvez chegue um dia em que o medo de permanecer seja maior do que o medo de partir. E, quando isso acontecer, você não precisará que alguém autorize a sua decisão.


Você saberá.


Não porque terá deixado de sentir medo, mas porque finalmente terá compreendido que continuar se abandonando custa mais do que recomeçar...


Cristina R. Arango


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