Não era falta de desejo. Era falta de espaço.
Atualizado: 23 de ago.

Há mulheres que dizem que perderam o desejo.
Eu sempre fico um pouco desconfiada dessa frase. Porque, às vezes, o desejo não desapareceu. Foi apenas soterrado.
Debaixo da lista do supermercado. Da preocupação com os filhos. Das contas.
Das mensagens que precisam ser respondidas. Da casa que alguém precisa perceber que está desorganizada. Do trabalho que continua existindo dentro da cabeça mesmo depois que o computador foi fechado.
É difícil desejar quando se passa o dia inteiro sendo necessária.
Desejo exige uma pequena dose de irresponsabilidade.
Um intervalo.
Um território onde ninguém esteja pedindo nada.
E talvez seja justamente esse território que muitas mulheres perderam.
Existe uma diferença enorme entre ser amada e ser desejada. E outra ainda maior entre ser desejada por alguém e conseguir desejar. Porque o desejo não nasce apenas do corpo do outro. Nasce também da possibilidade de abandonar, por alguns instantes, todos os papéis que carregamos.
Não ser mãe.
Não ser profissional.
Não ser a pessoa que lembra os horários, percebe o que falta, organiza as férias, pergunta se todo mundo comeu.
Ser apenas mulher.
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Talvez seja por isso que certas mulheres se surpreendam quando alguma coisa aparentemente insignificante as desperta.
Uma conversa.
Uma música.
Um cheiro.
Um olhar que dura meio segundo além do necessário.
Não significa necessariamente que desejem aquela pessoa. Às vezes, desejam a mulher que reapareceu dentro delas naquele instante.
E isso é muito mais interessante.
Porque talvez uma parte importante do desejo feminino não seja encontrar alguém capaz de acendê-lo. Seja recuperar o espaço interno onde ele consegue existir.
Há uma diferença entre uma mulher que não deseja mais e uma mulher que está cansada demais para escutar o próprio desejo. Nós confundimos as duas com frequência.
Talvez porque ainda falemos pouco sobre o quanto o prazer também depende de liberdade mental. Não apenas liberdade para dizer sim. Liberdade para não estar resolvendo nada. Para não cuidar de ninguém. Para não produzir. Para não ser eficiente.
Por algumas horas, talvez por alguns minutos, simplesmente existir dentro do próprio corpo. E talvez o desejo comece exatamente aí.
Não quando alguém toca uma mulher.
Mas quando, depois de muito tempo, ela consegue novamente sentir a si mesma...
É sobre isso!
Cristina R. Arango
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