A liberdade de não caber mais...
Atualizado: 23 de ago.
Eu reivindico a liberdade de ser quem eu sou
não quem aprendi a ser para caber,
não quem me tornei para não perder.

Não uma versão ajustada, polida, estrategicamente aceitável.
Mas aquela que pensa demais, sente fundo, muda de ideia,
e já não tem paciência para viver em estado de contenção.
Durante muito tempo, existir foi um exercício de cálculo.
Medir palavras. Dosar gestos. Antecipar reações.
Aprendemos cedo que ser inteira podia custar caro.
Então fomos ficando funcionais.
Agradáveis.
Legíveis.
Chamaram isso de maturidade.
Mas era apenas medo com boa educação.
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Até que algo começa a falhar.
Não de forma dramática, falha em silêncio.
Uma exaustão sem nome.
Uma sensação persistente de estar presente demais para desaparecer,e ausente demais para se reconhecer.
Algumas relações não machucam, elas anestesiam.
Não ferem diretamente, mas vão reduzindo o espaço interno.
A gente continua ali, operando, respondendo, mantendo.
Só não cresce mais.
Chamamos isso de amor.
Mas o amor que exige diminuição constante
não é vínculo, é acordo.
Um pacto implícito onde a paz depende da nossa auto-censura.
A felicidade, quando acontece de verdade, não traz euforia.
Ela traz alinhamento.
É quando parar de agradar deixa de parecer egoísmo
e começa a soar como honestidade.
Sair de certas histórias não é um gesto impulsivo.
É um processo longo de escuta interna.
Porque antes de ir embora do outro, a gente precisa voltar para si.
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E isso dói.
Dói perceber quanto tempo se viveu em suspensão.
Quanto se adiou a própria voz para manter algo que só existia se a gente se calasse.
Algumas relações são como um lugar bonito onde nada floresce.
Não há conflito, mas também não há expansão.
Só repetição.
Só manutenção.
Só silêncio confortável demais para ser amor.
E quando se enxerga isso, não dá mais para fingir.
Porque nenhum vínculo justifica a perda lenta de si mesma.
Liberdade não é romper com o outro por revolta.
É romper com o hábito de se abandonar.
É sustentar a própria inteireza, mesmo quando ela incomoda.
Hoje, eu não negocio mais a minha presença.
Não diminuo para caber.
Não silencio para manter.
Não finjo para pertencer.
Eu escolho existir por inteiro. E se isso desloca, questiona ou desagrada,
talvez seja porque, finalmente,
eu parei de pedir licença para ser.
É isso!
Cristina R. Arango
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