Quanto custa parecer inteira?
- Cristina Arango

- há 11 minutos
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Durante muito tempo, ensinaram-nos a reconhecer a força por aquilo que ela mostra.
A pessoa forte aguenta. Resolve. Continua. Não incomoda. Não desaba em público. Não pede demais. Não transforma a própria dor em problema para os outros.
A dor até pode existir, desde que seja discreta. Desde que não atrase compromissos, não altere o tom da voz, não comprometa o trabalho, não desorganize a casa, não assuste ninguém.
E talvez seja justamente aí que começamos a sofrer duas vezes: primeiro pelo que nos acontece; depois, pelo esforço quase brutal de convencer o mundo de que nada aconteceu.
Há um cansaço muito particular em parecer inteira quando alguma coisa dentro de nós já não está no lugar.
Responder mensagens normalmente. Cumprir prazos. Preparar o jantar. Escutar problemas alheios. Ser gentil. Ser produtiva. Sorrir. Dizer “está tudo bem” com uma precisão quase profissional, enquanto o corpo inteiro sabe que não está.
Não é sempre a ferida que mais nos esgota.
Às vezes, é o trabalho de escondê-la.
Fomos tão acostumadas a associar vulnerabilidade à fraqueza que esquecemos de perceber o quanto é preciso ser forte para reconhecer aquilo que nos atravessa de verdade.
Existe coragem em admitir: isso me machucou.
Isso foi demais para mim.
Eu senti falta.
Eu não consegui.
Eu preciso de ajuda.
Eu não quero mais.
Essa pessoa ultrapassou um limite.
Eu não estou bem.
Frases aparentemente simples, mas que muitas vezes exigem mais de nós do que continuar funcionando.
Porque continuar pode virar hábito. Sentir exige presença.
E há momentos em que nos tornamos tão competentes em sustentar a própria imagem de força que começamos a perder contato com o que realmente sentimos.
Já não escondemos apenas dos outros.
Escondemos de nós mesmas.
Minimizamos o incômodo. Racionalizamos a tristeza. Chamamos exaustão de fase. Chamamos abandono de independência. Chamamos silêncio de maturidade. Chamamos resistência de força, mesmo quando, no fundo, já estamos apenas sobrevivendo.
Talvez por isso eu pense cada vez mais que força não tem tanto a ver com permanecer intacta. Talvez tenha a ver com parar de exigir isso de si.
Há rachaduras que não precisam ser consertadas imediatamente. Há períodos em que não somos nossa versão mais produtiva, mais segura, mais bonita ou mais fácil de conviver. Há momentos em que a vida nos diminui o ritmo, desarruma certezas, expõe carências que preferíamos não ter.
E nada disso nos torna menores.
A vulnerabilidade também não precisa virar uma nova identidade. Não é preciso romantizar a dor, fazer dela morada ou transformá-la em espetáculo.
Ela é, muitas vezes, apenas uma passagem honesta.
O lugar em que paramos de atuar.
O instante em que deixamos de administrar a impressão que causamos e começamos, finalmente, a prestar atenção no que estamos vivendo.
Talvez amadurecer tenha um pouco disso: perceber que não precisamos ser invulneráveis para sermos fortes.
Podemos ser firmes e sensíveis.
Seguras e atravessadas.
Inteiras mesmo carregando partes ainda em reconstrução.
Podemos estar de pé sem fingir que saímos ilesas.
E talvez uma das formas mais profundas de força comece exatamente aí: quando já não precisamos gastar tanta energia tentando convencer alguém, inclusive nós mesmas, de que estamos bem.
Cristina R. Arango
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